quarta-feira, 12 de maio de 2021

Espetáculo

maquia um sorriso ao rosto pelas manhãs
desfruta da rotina sem espernear
riso amargo, beira o contraditório
mas está lá a estampar 
problemas cobertos pelos lençóis da cama
lamentos postergados ao que se ver clarear
receio de ser um mero drama
seguimos a trilha, viva a trama
ao dia, põe o riso a cara, vá embora
o personagem não pode morrer 
ator teatral, esconde como ninguém 
escondo-me feito ninguém 
talvez procure alguém 
está tudo bem, amém 
contratempo eles também têm 
disfarce mantido a copos e maços 
a temer de ser engolido pelo cansaço 
a maquiagem matinal precisa existir
o circo carece do palhaço sorrir.

segunda-feira, 19 de abril de 2021

Rua dos Bobos, N° zero

tua imagem, teu retrato sem moldura
tintura as paredes da casa
pintadas das cores que tu apontou
e nem as viu coloridas 
tem memória tua em cada cômodo
tem respingo teu em cada quina
um peso amargo junto a lembrança 
os cantos ecoam vozes de semelhança a tua
as portas batidas remetem a rimas que a ti um dia já foram escritas
saudades empoeiradas do teto ao chão
e há semanas não se vê faxina 
os risos se perderam na bagunça do armário
trancados em gavetas de chaves perdidas 
alegrias varridas para debaixo do tapete 
a paz abafada pelos montes de roupa
fantasmas no quarto rompem o sono
apesar do cheiro novo, o colchão é duro ao deitar
teus vultos ao anoitecer infestam o corredor
homem de pouca fé, desaprendi a rezar.

sábado, 27 de março de 2021

A lua tá me seguindo!

Pra onde eu vou ela vai. Ela compete com o sol, consigo vê-la de dia. Eu gosto da companhia dela, ela não tá me seguindo, na verdade, sou eu quem tô seguindo ela. Procurando os lugares mais escuros pra sentir cada vez mais o brilho dela. Eu amo o brilho da lua, desde a lua nova até a lua preenchida. Eu amo quem me ensinou a amar a lua. E a Lua não me deixa esquecer disso, ela energiza o que resta de sentir em mim, e como sempre faço, tento esticar o máximo que consigo o sentir, pra que logo passe, e eu volte pro lugar obscuro que pertenço. A fadiga de amar é linda e traz bom senso. Eu só nunca me senti legítimo pra sentir isso por tanto tempo. Eu nunca quis me despedir de verdade das pessoas que amei, queria que estivessem comigo a todo momento. Não cabe a ninguém a tarefa de me punir pelo consentimento. Pelos erros seguidos que decidiram caber em mim, o pior homem de todos os tempos. A lua tá me seguindo, ela me diz por dentro, pra olhar pra cada estrela ao seu lado e lembrar que as mortas brilham apesar do tempo. Eu queria me despedir sem tantos lamentos, sem deixar tantas feridas e como um vírus, matar por dentro quem me hospeda e morrer com o tempo. Talvez eu busque a solução menos convidativa pra quem sabe reparar os danos provocados pela falta do dengo. E por ter visto a lua, sinto que já tive a melhor vida de todos os tempos. Aquele abraço.

domingo, 21 de março de 2021

O medo da mediocridade

Estar entre também é estar

O tempo do meio entre um encontro e o outro

Também é tempo


A cada lágrima, é como se algo estivesse saindo de mim

Pra evaporar e virar parte do universo

Parte do meio, virar história


Eu faço parte do meio

Mas ainda sim me doi tanto sentir você fora de mim

Sem os compromissos que garantiam a nossa formalidade


Eu tenho muito medo da mediocridade

De sentir saudade, de dizer faz parte

De sentir amor, de me sentir amado

De mentir que era verdade, quando você me perguntou aquele dia

Se eu sentia falta você de tarde